
Medicina na Itália x Brasil: onde vale mais a pena ser médico?
Um retrato com números: 635 mil médicos no Brasil, 494 faculdades e 6,8% de aprovação no ENARE. Do outro lado, 17% das vagas italianas sobrando.
Se você está começando a carreira e pensa no seu futuro, uma realidade precisa entrar nessa decisão.
O Brasil deve fechar 2025 com 635.706 médicos ativos, segundo projeção do estudo Demografia Médica no Brasil 2025 (FMUSP/AMB/Ministério da Saúde, coordenado por Mário Scheffer). É um salto forte frente aos 575.930 médicos que o CFM contava em janeiro de 2024 — aumento que o próprio CFM classificou publicamente como "cenário de risco para a assistência".
Quantas faculdades formam esses médicos?
O número é um alvo em movimento acelerado: 389 escolas (CFM, jan/2024) → 448 escolas (Demografia Médica 2025, que registra "eram 252 há 10 anos") → 494 escolas na contagem mais recente (FMUSP via Lei de Acesso à Informação, set/2025).
Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025 — menos de dois anos — o MEC aprovou 77 novos cursos de medicina (4.412 vagas novas) e ampliou outros 20 cursos existentes (+1.049 vagas).
O Brasil é hoje, em números absolutos, um dos países com mais faculdades de medicina do planeta.
41% dos médicos brasileiros nunca viraram especialistas
O dado exato vem de levantamento inédito AMB/FMUSP/Ministério da Saúde (dez/2024): de 597.428 médicos analisados, 353.287 (59,1%) são especialistas e 244.141 (40,9%) são generalistas sem título.
Esse contingente cresceu de 153,8 mil em 2018 para 244,1 mil em 2024 — alta de quase 59% em seis anos.
Por que virar especialista no Brasil é tão difícil
Em 2023 o Brasil formou 27.263 médicos. Para 2024, havia apenas 16.189 vagas de residência de acesso direto (R1). Menos da metade dos recém-formados consegue entrar direto na residência no mesmo ano em que se forma.
Entre 2018 e 2024, o número de estudantes de medicina cresceu 71% (de 168 mil para 288 mil), enquanto as vagas de residência cresceram apenas 26% (de 38 mil para 48 mil). O gargalo está crescendo, não encolhendo.
A concorrência por especialidade é brutalmente desigual. No processo seletivo 2025/2026 do IAMSPE, a relação geral foi de 34 candidatos por vaga — mas, dentro da mesma instituição, Dermatologia teve 56,7 candidatos/vaga e Infectologia teve 6,5.
Olhando o país como um todo:
| Especialidade | Concorrência (candidatos/vaga) |
|---|---|
| Dermatologia | 31 a 63 (média nacional); até 186 na AMRIGS |
| Psiquiatria | 45,6 (Famerp 2026) |
| Neurocirurgia | até 45,7 |
| Otorrinolaringologia | ~35 |
| Cirurgia Geral | 33–34 (IAMSPE) |
| Medicina Intensiva | 14–16 |
| Infectologia | 6,5 |
No ENARE 2025/2026 (entrada em março de 2026), a modalidade de Acesso Direto teve 5.447 vagas para 80.127 candidatos homologados — taxa de aprovação de 6,8%. Ou seja: 93,2% dos inscritos ficaram sem vaga.
O ciclo seguinte (ENARE 2026/2027, prova aplicada em 13/09/2026, resultado ainda não divulgado) já registra inscrição preliminar de 89.932 candidatos para 7.673 vagas de Acesso Direto.
O que acontece com quem não vira especialista
O emprego formal está desaparecendo. Em dezembro de 2023, apenas 33,3% dos médicos registrados nos CRMs (190.917 de 572.960) tinham emprego formal — queda estrutural frente aos 52,5% a 54% de 2012/2013.
O número absoluto de vínculos formais caiu de 277.309 para 255.199 entre 2012 e 2023, e a média de vínculos por médico formalizado caiu de 1,53 para 1,34. Não porque os médicos trabalham menos, mas porque migraram para modalidades sem carteira: PJ, plantão avulso, cooperativa.
O plantão perdeu valor real. Em 2012, um plantão de 12h pagava em torno de R$ 1.200 — o dobro do salário mínimo da época (~R$ 600). Em 2025, a média nacional de plantão (R$ 1.400) já ficou abaixo do salário mínimo vigente (R$ 1.518). A faixa hoje vai de R$ 1.200 a R$ 5.500 conforme carga, especialidade e região, mas a média real fica em R$ 1.200–1.500, caindo a R$ 700 no interior — cerca de metade do valor de 15 anos atrás.
Reportagem da Folha de S.Paulo (mar/2026) documenta médicas recém-formadas em Curitiba disputando vagas de plantão em grupos de WhatsApp que se esgotam em segundos — algumas deixam a palavra "pego" pré-digitada para disparar assim que a vaga aparece.
A distribuição geográfica é o outro lado da mesma moeda: 7,03 médicos por mil habitantes nas capitais contra 1,89 por mil no interior. Quatro vezes mais médicos na capital, mesmo com o interior concentrando 77% da população e atraindo só 48% dos médicos.
O panorama italiano
A Itália tem 5,4 médicos por mil habitantes (OCDE, dados de 2023) — mais de 25% acima da média da União Europeia. Mas essa densidade nacional esconde um problema estrutural: apenas 1,86 médico do SSN por mil habitantes está efetivamente disponível no serviço público. O excedente formal não se traduz em gente na ponta.
Resumindo: faltam médicos no sistema público de saúde italiano.
Na residência, sobram vagas
Na Itália, a residência médica é feita através do SSM (concorso nazionale delle scuole di specializzazione in medicina): prova única nacional, 140 questões de múltipla escolha, 210 minutos, com +1 ponto por acerto, 0 por questão em branco e −0,25 por erro.
Depois da prova publica-se a graduatoria nazionale di merito, um ranking nacional único por pontuação. Cada candidato monta uma lista de preferências (especialidade + universidade), e o sistema aloca automaticamente começando pelo mais bem colocado.
Há três fases de atribuição: uma ordinária e duas extraordinárias — os scorrimenti —, que redistribuem vagas liberadas por desistência.
A série histórica de preenchimento mostra uma inversão real:
| Ano | Vagas ofertadas | % preenchidas | Vagas vazias |
|---|---|---|---|
| 2023 | 16.165 | 62,1% | 38% |
| 2024 | 15.256 | 75% | 25% |
| 2025 | 15.283 | 83% | 17% |
Em 2023, quase 4 de cada 10 vagas de especialização na Itália sobraram sem candidato. Em 2025 essa sobra caiu para menos de 2 em cada 10 — mas ainda é uma sobra estrutural, concentrada quase sempre nas mesmas áreas.
Residência: a comparação direta
No Brasil, entrar na residência virou um funil. O número de formados cresce rápido, as vagas não acompanham, e nas especialidades mais desejadas dezenas de candidatos disputam uma única vaga. Depois de entrar, o residente enfrenta jornada de até 60 horas semanais com bolsa nacional de R$ 4.106,09 por mês.
Na Itália, em 2025 foram ofertadas mais de 15 mil vagas e 17% não foram preenchidas.
Isso cria uma inversão interessante: no Brasil, milhares de médicos procuram vaga; na Itália, em determinadas especialidades, ainda existem vagas procurando médico.
Claro que não é fácil em qualquer especialidade — Dermatologia, Cardiologia e Cirurgia Plástica continuam entre as mais disputadas na Itália. Mas para quem tem flexibilidade de escolher especialidade e cidade, a Itália oferece possibilidades de entrada muito mais difíceis de encontrar no mercado brasileiro.
E o salário durante a especialização?
No Brasil, a bolsa nacional do residente é de R$ 4.106,09 por mês, para jornada que pode chegar a 60 horas semanais.
Na Itália, o specializzando recebe aproximadamente € 1.700 a € 1.900 por mês, com jornada contratual de 39 horas semanais.
Não basta converter euro em real: o custo de vida na Itália é maior, e cidades como Milão e Roma pesam no orçamento. Mas em cidades menores dá para viver bem com essa renda.
E a comparação mais relevante não está no salário nominal — está na relação entre remuneração, carga horária e tempo disponível fora do hospital. Para quem escolhe onde passar os próximos anos se especializando, não é só uma diferença de salário: é uma diferença na forma como esses anos podem ser vividos.
Depois da especialização
A diferença entre os dois países não termina quando a residência acaba.
No Brasil, a carreira médica está cada vez mais marcada por plantões avulsos, vínculos PJ e múltiplas fontes de renda. Em 2023, apenas 33,3% dos médicos registrados nos CRMs tinham emprego formal. Para muitos, alcançar uma boa renda significa acumular vínculos e horas.
Na Itália, o médico que ingressa de forma estruturada no sistema público encontra um caminho mais previsível. Um especialista do SSN (Servizio Sanitario Nazionale) recebe, em média, de € 83 mil a € 100 mil brutos por ano, além dos direitos associados ao vínculo.
E há um motivo para essas oportunidades continuarem aparecendo: a Itália ainda enfrenta falta de médicos em determinadas regiões e especialidades, além da saída de profissionais do próprio sistema público.
Quem tem flexibilidade para olhar além de Roma e Milão pode encontrar um mercado que não está apenas recebendo novos médicos — está precisando deles.
Médico brasileiro pode trabalhar na Itália?
Sim. Existem dois caminhos principais:
- Revalidação do diploma — o reconhecimento definitivo do diploma brasileiro na Itália, que permite construir uma carreira médica completa no país.
- Permissão temporária — por meio de um decreto válido até dezembro de 2029, médicos com diploma estrangeiro podem atuar em determinadas regiões e estruturas de saúde italianas mesmo sem concluir a revalidação definitiva.
Ou seja: não é simplesmente comprar uma passagem e começar a atender.
A janela italiana pode não durar para sempre
Hoje, a Itália precisa de médicos. Faltam profissionais em algumas regiões, sobram vagas em determinadas especialidades e o país criou caminhos para facilitar a entrada de estrangeiros.
Mas o cenário já começou a mudar. A Itália aumentou as vagas nas faculdades de Medicina e, nos próximos anos, mais médicos italianos vão chegar ao mercado.
Então a pergunta não é só "vale a pena ser médico na Itália?". É: até quando essa janela vai estar aberta?
Porque hoje, enquanto no Brasil cada vez mais médicos disputam espaço, na Itália ainda existem espaços precisando de médicos. E quem entende isso antes sai na frente.
Fontes
- Demografia Médica no Brasil 2025 — FMUSP
- Demografia Médica 2025 — AMB
- Lei 6.932 — Planalto
- ENARE 2025 — FGV
- Apenas um terço dos médicos tem emprego formal — FAPESP na Mídia
- Demografia médica: aumento recorde — Portal FMB
- Health at a Glance 2025, Itália — OCDE
- Anaao Assomed
- Esercizio temporaneo — Regione Calabria
- Oltre 60mila medici in cerca di lavoro entro il 2032 — ANSA


